Compras em Jogos: Como Falar de Dinheiro Com os Filhos

A fatura do cartão chega e lá está uma sequência de cobranças de R$ 19,90, R$ 49,90 e R$ 9,90 com nomes que você não reconhece. Meia hora de investigação depois, o mistério se resolve: eram moedas virtuais, skins e passes de temporada comprados no jogo favorito do seu filho, com o cartão que ficou salvo no celular.
As compras em jogos se tornaram uma das primeiras experiências de consumo de muitas crianças e adolescentes. E, desde março de 2026, a lei mudou parte das regras. O ECA Digital (Lei 15.211/2025) entrou em vigor em 17 de março, segundo o Ministério Público do Rio Grande do Sul, e vedou as caixas de recompensa, as chamadas loot boxes, em jogos voltados a menores ou com acesso provável por eles.
A lei ajuda, mas não substitui a conversa em casa. Neste artigo, explicamos o que mudou, o que continua permitido e como transformar as compras em jogos numa aula prática de dinheiro.
O que o ECA Digital mudou nas compras em jogos
A principal mudança é a proibição das caixas de recompensa para o público menor de 18 anos. Loot box é aquele item pago cujo conteúdo é sorteado: você paga sem saber o que vai receber. A lei também exige verificação de idade mais rigorosa, vincula contas de menores de 16 anos a um responsável e proíbe publicidade direcionada a crianças e adolescentes em redes, jogos e aplicativos, conforme resumo do Olhar Digital.
As empresas reagiram de formas diferentes. A Riot Games, por exemplo, elevou a classificação de League of Legends para 18 anos no Brasil e passou a bloquear contas de menores, de acordo com o Olhar Digital.
O que continua permitido (e pesa no bolso)
A lei mira o mecanismo de sorteio, não toda compra dentro do jogo. Moedas virtuais, skins, passes de temporada e itens com preço e conteúdo conhecidos continuam existindo. E são eles que mais aparecem na fatura.
O cálculo é simples e costuma assustar: R$ 50 por semana em moedas virtuais somam R$ 200 por mês e R$ 2.400 por ano. Para muitas famílias, é mais do que o material escolar do ano inteiro. Um passe de temporada de R$ 39,90 renovado a cada dois meses custa quase R$ 240 por ano.
Por que a moeda virtual confunde a noção de valor
Os jogos raramente mostram preços em reais na hora da compra. O item custa “800 moedas”, e as moedas foram compradas antes, em pacotes. Essa camada intermediária afasta a criança da ideia de dinheiro de verdade, e às vezes afasta o adulto também.
Um exercício que funciona bem: traduzir as moedas em reais e em tempo. Se a mesada é de R$ 40 por mês, um item de R$ 20 equivale a meio mês de mesada. Se a criança quer um passe de R$ 39,90, ela precisa guardar a mesada inteira de um mês. Quando o preço vira esforço, a decisão fica mais consciente. Para definir um valor adequado à idade, vale consultar quanto dar de mesada para cada idade.
Como conversar com os filhos sobre compras em jogos
O que vemos com frequência é a conversa acontecer só depois do susto com a fatura, já em clima de bronca. Achamos importante inverter a ordem: falar antes, com regras combinadas e sem transformar o jogo em inimigo. Jogos fazem parte da vida social das crianças hoje, e proibir tudo costuma empurrar as compras para o escondido.
Alguns combinados práticos:
- Orçamento de jogos separado: um valor fixo por mês, por exemplo R$ 30, que sai da mesada ou é combinado à parte. Acabou, só no mês seguinte.
- Cartão nunca salvo: remova o cartão das lojas de aplicativos e consoles e ative a exigência de senha ou aprovação do responsável para cada compra.
- Cartão pré-pago ou conta infantil: permite que a criança gaste o próprio saldo sem acesso ao seu limite. Explicamos os prós e contras na mesada digital e contas infantis.
- Regra das 24 horas: antes de comprar um item, espera um dia. Muita vontade desaparece de um dia para o outro.
- Conversa sobre sorteios: mesmo onde a loot box é proibida para menores, a mecânica aparece em outros lugares. Explique que pagar por um sorteio é apostar, e que a casa sempre ganha no longo prazo.
Esses combinados conversam com tudo o que defendemos no guia de educação financeira para crianças: o objetivo não é a criança nunca gastar, e sim aprender a escolher.
Perguntas frequentes sobre compras em jogos
O ECA Digital proibiu as compras em jogos para menores?
Não todas. A Lei 15.211/2025, em vigor desde 17 de março de 2026, vedou as caixas de recompensa (loot boxes) em jogos voltados a menores de 18 anos ou com acesso provável por eles. Compras com preço e conteúdo conhecidos, como moedas virtuais, skins e passes, continuam existindo. Por isso, os controles dos pais e as regras combinadas em casa seguem essenciais.
Posso pedir reembolso de compra feita pelo meu filho sem autorização?
Em muitos casos, sim. As lojas de aplicativos e de consoles têm canais de reembolso, especialmente para compras recentes feitas por menores. Entre em contato rapidamente pela própria loja, explique a situação e, em seguida, remova o cartão salvo e ative a exigência de senha. Se não houver solução, o Procon e o consumidor.gov.br podem ajudar.
A partir de que idade dar dinheiro para gastar em jogos?
Não há idade certa, mas costuma funcionar quando a criança já entende a mesada e consegue esperar alguns dias por uma compra. O mais importante é que o valor seja fixo, conhecido e saia de um orçamento combinado. Assim, o jogo vira uma oportunidade de praticar escolha, espera e prioridade com quantias pequenas.
Sua ação de hoje
Pegue o celular, o tablet e o console da casa e confira, em cada um, se há cartão salvo e se a compra exige senha. Depois, sente com seu filho por dez minutos e combinem juntos o valor mensal para jogos. Uma regra clara hoje evita a fatura surpresa amanhã e ensina algo que vale para a vida toda: dinheiro bem escolhido é liberdade, não proibição.
Sobre o Guardar Dinheiro: Este conteúdo foi produzido pela equipe do Site Guardar Dinheiro, dedicada a mostrar que guardar dinheiro não é privação — é liberdade para escolher como viver hoje e garantir o amanhã.
Este conteúdo tem caráter educacional e não constitui recomendação de investimento. Atualizado em: 14/10/2026



