Governo Quer Recomprar Dívidas Antigas: o Que Já Se Sabe

Tem uma dívida da pandemia que você nem abre mais o e-mail de cobrança? Um cartão que estourou, uma conta de celular esquecida. Ela não te liga mais, mas aparece toda vez que você tenta financiar uma moto ou pedir limite.
É exatamente esse tipo de pendência que está no centro da nova proposta do governo federal. O Ministério da Fazenda estuda um programa de recompra de dívidas antigas: em vez de chamar cada pessoa para renegociar, o próprio governo compraria essas dívidas dos bancos e empresas com um desconto enorme e limparia o nome de quem deve.
Por enquanto, é só uma proposta. Vamos separar fato de promessa.
O que o governo está propondo
A ideia é fazer um leilão em que credores vendem, em bloco, dívidas antigas que já consideram irrecuperáveis, com deságio estimado entre 95% e 97%. Em entrevista publicada pela InfoMoney/Agência O Globo em 17/09/2026, o ministro Dario Durigan disse que o foco são débitos que “os próprios bancos, as próprias empresas já perderam a esperança de receber”.
Na prática, uma dívida de R$ 3.000 que o banco já deu como perdida poderia ser comprada por algo entre R$ 90 e R$ 150. A diferença para o Desenrola: você não precisaria entrar numa plataforma para renegociar.
O que ainda não está definido
Quase tudo o que importa para o seu bolso ainda está em aberto:
- Quais dívidas entram (bancárias, contas de luz, telefone?)
- Qual o limite de renda ou de valor
- Se a dívida será cancelada ou se haverá alguma cobrança simbólica
- Quando o programa começa — se antes ou depois do 1º turno das eleições, em 4 de outubro
Por que isso surgiu agora
O gatilho foi a inadimplência dentro do próprio Novo Desenrola. Dados do Fundo Garantidor de Operações mostram que 30,34% das renegociações parceladas voltaram a atrasar, segundo levantamento publicado pelo Mix Vale em 23/09/2026. Em valores, são R$ 1,25 bilhão em parcelas não pagas de R$ 3,3 bilhões financiados.
Para comparar, a inadimplência geral das pessoas físicas estava em 5,8% em julho, segundo o Banco Central. Quem renegociou já chegou apertado, e parte não sustentou a parcela.
O que muda (e o que não muda) para você hoje
Hoje, nada muda: não há programa aprovado nem inscrição. Mas duas regras que já valem podem te ajudar.
A regra dos 5 anos já existe
Pelo Código de Defesa do Consumidor (art. 43), a negativação não pode ficar no seu CPF por mais de cinco anos. Uma dívida de setembro de 2021, por exemplo, deixa de aparecer nos cadastros de inadimplentes em setembro de 2026, mesmo sem pagamento. A dívida não some da relação com o credor, mas sai do Serasa e do SPC.
Confira a data de cada pendência: algumas podem sair antes de qualquer programa novo.
O Novo Desenrola continua valendo
Para quem tem renda de até cinco salários mínimos, o programa atual oferece descontos de 30% a 90%, parcelamento em até 48 vezes e possibilidade de usar até 20% do FGTS para quitar, conforme as regras da MP 1.355/2026.
Minha leitura, de quem viu o crédito por dentro
Nos meus anos no PagBank, aprendi que dívida antiga tem um valor contábil quase zero para o credor, mas um peso enorme para quem deve. É por isso que esses leilões fazem sentido do ponto de vista do banco: vender por R$ 100 algo que ele já não conta receber é melhor do que nada. Só que eu também vi muita gente parar de pagar uma parcela esperando um “perdão” que não veio. Minha sugestão é simples: não mude nada no seu comportamento de pagamento por causa de uma proposta. Continue pagando o que está em dia e trate o programa como um bônus, se sair.
Cuidado com golpes
Enquanto não houver anúncio oficial no gov.br, qualquer mensagem pedindo taxa para “garantir sua vaga” é golpe. Programa do governo não cobra adesão.
Perguntas frequentes sobre a recompra de dívidas antigas
O governo vai perdoar minhas dívidas?
Ainda não há nada aprovado. O Ministério da Fazenda estuda comprar dívidas antigas com desconto de 95% a 97% em leilão e, possivelmente, cancelá-las. Mas quem pode participar, quais dívidas entram e quando começa ainda não foram definidos. Até lá, as regras que valem são as do Novo Desenrola e do Código de Defesa do Consumidor.
Preciso me inscrever em algum site?
Não. Até o momento, não existe inscrição para esse novo programa. A proposta, inclusive, prevê que o consumidor não precise fazer nada, já que o leilão seria feito diretamente entre governo e credores. Qualquer site ou mensagem pedindo seus dados ou uma taxa para “entrar na lista” deve ser tratado como tentativa de golpe.
Se eu parar de pagar agora, minha dívida entra no programa?
Não conte com isso. O foco anunciado são dívidas antigas, principalmente da época da pandemia, que os credores já consideram perdidas. Parar de pagar agora só gera juros, negativação e queda no score, sem nenhuma garantia de que a dívida será incluída em programa futuro.
Dívida com mais de 5 anos ainda suja o nome?
Não. Pelo artigo 43 do Código de Defesa do Consumidor, a informação negativa só pode ficar nos cadastros de inadimplentes por até cinco anos. Depois disso, ela deve sair do Serasa e do SPC, mesmo que a dívida não tenha sido paga. O credor ainda pode cobrar por outros meios, mas não pode manter a negativação.
O que fazer hoje
Abra o app do Serasa ou do SPC, liste cada dívida com a data de vencimento original e separe em três grupos: mais de cinco anos (vai sair sozinha), dívidas antigas e grandes (candidatas a um futuro leilão) e dívidas recentes (vale negociar já no Desenrola). Essa lista de 15 minutos te dá clareza para decidir, sem depender de promessa. E clareza é o primeiro passo para voltar a ter escolhas.
Este texto noticia uma proposta em estudo e não é recomendação de deixar de pagar ou de contratar qualquer produto financeiro.
Sobre a autora: Gracy Ferreira é especialista em marketing com quase 12 anos de experiência no PagBank e mais de 15 anos investindo na prática. Fundadora do Site Guardar Dinheiro, onde escreve sobre o caminho do meio entre viver hoje e garantir o futuro.
Este conteúdo tem caráter educacional e não constitui recomendação de investimento. Atualizado em: 24/09/2026


